22 Maio, 2007

Fazia frio.
Algum frio.

Não o suficiente para que o seu corpo se ressentisse, mas antes aquele frio que arrefece sómente os sentidos deixando tudo o resto intocável.

Sentado no cume daquele monte, e olhando o horizonte até onde a vista alcançava, deu por si coagitando acerca da mínuscula (ou não) importância da raça humana quando inserida no contexto global da existência.

Sempre defendera uma linha de raciocinio contrária.

Sempre pensara pertencer a uma raça naturalmente superior e por direito evolucionário dotada de um sem número de atributos únicos que a tornavam dominadora por excelência.
Mas ali e naquele instante dava-se conta do seu engano.
Sentia-se reduzido à mais infima sensação de insignificância perante todo o cenário que o rodeava. Não que o ambiente circundante fosse frondosamente preenchido.

Antes pelo contrário.
E talvez que por ser tão "nú" se tornasse tão avassalador ao seu "eu" que constatava existir naquela desnudada e mais do que singela paisagem a força de algo que ele não entendera até então.

Sentia agora e sem saber muito bem o porquê, que respostas a muitas das perguntas e pesquisas que fizera ao longo da sua vida se encontravam ali perante ele.

Sentia-se fragilizado perante esta e todas as outras deduções que daí advinham.
Invadia-o uma saudade repentina que lhe toldava por completo o raciocínio, e que sem saber muito bem porquê, lhe fazia sentir ter ele perdido algumas das melhores coisas que a existência reservara para si.
Sentia que pela primeira vez em muitos anos se encontrava realmente sintonizado com algo muito grande.

Diria mesmo um todo.

Deu-se conta então de que na linha do horizonte o Sol descrevia a sua trajectória que de um modo inexorável o conduziria ao seu ocaso, e com ele ao final de mais uma jornada.

E sd tal modo se sentiu atraido por tudo aquilo que ali decidiu permanecer um pouco mais, tentando absorver mais um pouco daquela paz enorme.

Aos poucos sobreveio-lhe uma suave dormência, que o levou a decidir que poderia ali descansar um pouco mais.

Encostou a cabeça a uma árvore, e sorrindo adormeceu.

....

... Já o Sol ia alto quando um grupo de caçadores o encontrou, ali encostado naquela árvore e sorrindo.

- Coitado, disseram.
- Morreu sem sequer dar conta.

Estariam eles certos ou algo de diferente se passara ali nos ultimos instantes da vida de alguém?

Luis Castanheta

2 comments:

Loras disse...

Nossa q lindo o seu blog!
Parabéns. Gostaria de te-lo entre meus favoritos. abraços..

Loras disse...

Tá linda essa mensagemmmm!
bjsssss