01 Fevereiro, 2008

António abrigara-se á sombra acolhedora de uma das muitas árvores que abundavam por ali.
Não que o Sol fosse demasiado forte para ser suportado, mas sómente porque havia entendido que ali se sentiria melhor.
Pensava em variadissimas coisas, e dava a si mesmo o direito de "viajar" pela sua vida.
Encontrava-se ele neste patamar de pensamento quando de súbito " voz agradável ao seu ouvido lhe sussurrou: "olá, estás por aqui ?"
Ficou surpreendido, e olhando á sua volta sentiu que não estava só, embora não conseguisse descortinar ninguém.
De novo "alguém" lhe disse: "nós tinhamos dito que voltariamos, quando tu necessitasses, e por isso aqui estamos. Queres falar um pouquinho ?"
Compreendeu então o que se estava a passar.
Os seus "fantasmas" tinham voltado.
Eles comprendiam-no e estavam ali somente para o escutarem.
Representavam toda a sua vida. Eram o somatório de todas as suas experiências terrenas e o resultado de todas as conclusões espirituais a que chegara.
Em suma, eram ele mesmo transpostos para um plano etéreo em que tudo se interligava de um modo tão subtil, que a simples definição de "ser" deixava de fazer sentido. Ali tudo "era" sómente.
Ali, os segredos ciosamente guardados de uma existência mais ou menos turbulenta ou pacifica, e que observados de um ponto de vista estritamente humano, seriam decerto ciosamente guardados, deixavam de fazer sentido, pois que não havia razão para que os factos fossem ocultados de quem os havia vivido, ou pelas suas próprias "memórias".
Viu, os meninos brincando com pé descalço sobre a terra, rindo de coisas simplesmente inocentes, sómente pelo prazer de rir.
Viu os jovens passeando e tentando descortinar o prazer de atrair o sexo oposto, descobrindo o que de melhor a vida tem.
Viu os adolescentes fazendo coisas menos boas com a falsa noção de que o mundo lhe pertencia, e que sómente eles estavam correctos, e sentiu-se triste.
Viu adultos enganando outros, e sentiu a dôr de quem é enganado e mesmo assim perdoa.
Viu e sentiu o arrependimento estampado na face de quem engana.
Viu as consequências guardadas para quem errou, e chorou, não só ele mas "eles".
Relembrou mais uma vez aqueles que havia desprezado e magoado, e mentalmente pediu-lhes perdão.
Falou com pessoas que adorava sem saber, e que hoje (reconhecia) que lhe fariam muita falta.
Sentiu-se exausto, e recostando-se na erva adormeceu. Quando acordou tudo não passava de um belo sonho. Sentia-se triste e confuso, mas decidira que como das demais vezes, teria de lutar.
Por vezes achava que essa era a principal função que tinha na vida.
Mas se assim era, então assim seria feito.
Levantou-se e caminhou sem saber muito bem para onde, mas caminhou.
O futuro seria o que tivesse de ser, mas mesmo assim lutaria até ao fim.
Só sabia ser assim. E enquanto uma lágrima lhe escorria sobre a face ele caminhava rumo a um amanhã incerto, com a certeza de que tudo faria para que o "depois de amanhã" fosse simplesmente melhor.

21 Dezembro, 2007

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Um Bom Natal e um Próspero 2008

17 Dezembro, 2007

Existem medos que temos e não confessamos, em detrimento de outros que confessamos e não possuímos.
Servem os segundos para ocultar os primeiros, com o simples intuito de nos enganarmos, fugindo ou tentando sómente esconder uma realidade que fingimos não viver, de modo a que se torne menos dificil o facto de carregarmos com o peso de uma existência que aos poucos se foi revelando demasiado pesada nós.

Luis Castanheta

16 Dezembro, 2007

Jamais seremos diferentes dos outros, tendo sómente por base,

- a crença que professamos,
- a educação que nos foi dada,
- o dinheiro que possuímos,
- o estatuto social que julgamos ou desejamos possuir,
- ou a nossa roda de amigos,

mas tão simplesmente pelo testemunho que damos.
Será ele que nos dará o real retorno e dimensão de tudo aquilo que somos.

Luis Castanheta

07 Dezembro, 2007

Se acaso possuo algo que tu desejas, então toma-o espontâneamente de mim.
Ceder-te-ei o que de melhor almejares possuir , sendo que em troca tomarei de ti algo que deseje.
Ficaremos ambos com a certeza de havermos conseguido o que desejámos.

Luis Castanheta

06 Dezembro, 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos.
Encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar.
Encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.

Chegada da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei
às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem,
encosta-te a mim.

Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes.
Vizinha de mim,
deixa ser meu o teu quintal,
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como foi.

Eu venho do nada
porque arrasei o que não quis
em nome da estrada, onde só quero ser feliz.
Enrosca-te a mim,
vai desarmar a flor queimada,
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo, e o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar,
mas quero-te bem.

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim

Quero-te bem.

Encosta-te a mim.

Posturas

O olhar exprime tudo aquilo que está vedado ás palavras e aos actos.
Somos "formatados" de modo a que saibamos restringir de forma mais ou menos natural alguns dos mais belos sentimentos que durante toda a nossa existência povoam o nosso real imaginário.

-Aprendemos a ser felizes ao sofrer, e entendemos isso como natural.
-Aprendemos a chorar sorrindo, e achamos que pode ser bom.
-Aprendemos a gritar permanecendo mudos, e pensamos ser educados.
-Aprendemos a respeitar o semelhante, violentando-nos a nós.

Mas sobretudo, aprendemos que na vida algumas das coisas que valem realmente a pena, estão restringidas por uma sociedade que ao invés de crescer de modo sustentado e alicerçada no respeito pelo próximo, cresce gerida nos mais baixos valores morais ditados pela enorme cobiça e vontade de subjugar aqueles que embora sendo iguais, por alguma razão foram "trucidados" pela vontade imensa de outros, que outras competências dignas de menção não possuem além daquelas que lhes permitem de modo miserável, gerar a infelicidade dos demais tentando com isso garantir o seu bem-estar.

Luis Castanheta

Dividas

Comparo não poucas vezes, a vida ao cardápio de um bom restaurante onde de forma ocasional entrámos para degustar uma simples refeição.
Não poucas vezes somos "tentados" pelas belas e finas iguarias que se nos apresentam, e de forma mais ou menos displicente, cometemos o pecado da gula.
No final , damo-nos conta de que cometemos demasiados excessos durante uma simples refeição.
Mas que fazer ?

A conta está á nossa frente, e a única opção válida passa pela sua liquidação total.
Mas, na vida ao contrário do que aconteceria no dito restaurante, pagaremos até ao final dos nossos dias essa mesma divida, fazendo não poucas vezes a pergunta:
"Será que valeu a pena" ?

Luis Castanheta